segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Poema da partida

Quando você vai embora
A noite estrangula o dia
Eu sinto a asfixia
Se alojar em meus pulmões

Não consigo respirar
Porque você é meu ar
Meu vinho
Meu alimento
Minhas alucinações

Quando você vai embora
A escuridão me devora
E chove aos borbotões
Na face oculta da lua

Eu choro sobre uma grua
Observando as canções

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Gás metano

Há horas em que a gente desanima

A febre queima e não arde
O sol nasce muito tarde
As horas passam mesquinhas
E a boca se cala e perde
Toda a capacidade
De distinguir os sabores

Um saco cheio de odores
Parece que nos invade
A alma pelas narinas

E nem as luzes dos carros
Iluminam a neblina
Que resiste ao fim da noite

Há horas em que o corte
Eterno no peito nu
Inflama, cresce e dói
Então todas as paredes
Que a alma humana constrói
Desabam assim, de repente

Quase que sutilmente
Desaparecem nos olhos
Aniquilados do herói

Há horas em que um ser
Triste, nocivo e estranho
Vira ácido e corrói
As estruturas internas
Do edifício humano

Espalham-se pelo ar
Os moles de um gás metano
Entorpecendo os sentidos

O estranho mundo dos vivos
É feito só de enganos,
Medos e paliativos

terça-feira, 2 de novembro de 2010

O cheiro da madrugada

Tem dias, em que a noite confunde a gente.

O sujeito chega, puxa a mesa da bodega, 
se aconchega e, de repente, 
nem sabe mais por que águas a própria alma navega.

E a lucidez segue assim em interminável refrega com a pobre da insensatez.

O dia chega e diz não.

A noite, sopra um talvez.

Já a doida madrugada, feroz e destrambelhada, em completa embriaguez, diz: agora, meu amor.

E as pernas entorpecidas se arvoram em merecida e lúdica caminhada.

No meio da noite, a estrada, nem parece com a balbúrdia que se encontra de dia. 


É luz piscando nos olhos, botequins pelas esquinas, um certo ar de festejo, a boca aberta pro beijo, decotes, saias, meninas...

O cheiro delas escorrendo pelo brilho das estrelas, tomando o cérebro inteiro e impregnando as narinas.

A noite deveria ser algum tipo de canção dessas que nunca termina.

Com acordes absolutos penetrando pelos tímpanos e se apossando do espírito

ou algum tipo de verso majestoso e impenetrável. 

Algo assim inenarrável, um experimento empírico por sua essência, abstrato.

E a madrugada, não o dia, deveria ser seu quarto para acomodar os partos insanos da poesia.

Rio New York - Um conto

Alfredo acordou sentindo um frio desgraçado. Em Janeiro, no Rio de janeiro, isso não deveria ser uma coisa normal.
-Tô com febre – pensou logo.
Levantou- se para catar um remédio e meio sem querer olhou pela janela. Estava nevando. Assustado, desceu correndo as escadas do prédio e foi olhar a rua. Tomou um baita susto. Gente encasacada andando pra lá e pra cá com o ar mais tranquilo do mundo, como se nada de absurdo estivesse acontecendo. Até Eurico, o pedinte oficial da rua, estava metido em uma daquelas capas compridas, de estilo novaiorkino.
Quando se deu conta estava quase congelado, as mãos chegavam a doer e nem sentia mais algumas partes do corpo. Correu pra casa para se agasalhar e tentar entender o que acontecia. Não lembrava de ter lido ou assistido em nenhum jornal no dia anterior notícias prevendo alguma frente fria. Ainda mais assim, acachapante.
Assim que entrou no AP pegou um edredom, enrolou-se nele e ligou para Tereza. A namorada talvez soubesse de alguma coisa, mas não estava em casa. Segundo a mãe, tinha ido ao Central Park dar uma voltinha.
- Central Park? Que porra é essa? – perguntou-se estupefato – Dormi em Botafogo e acordei em New York?
Ligou a televisão para ver se encontrava alguma explicação. A coisa piorou. O jornalista era conhecido, o mesmo âncora do jornal de TV de todos os dias, mas falava em inglês. Aparentemente falava de várias nevascas maltratando o Estado inteiro, inclusive uma brabíssima na Rodovia Washinton Luiz. Petrópolis já era. Estava completamente isolada. De vez em quando isso acontecia por conta das chuvas, mas por causa de nevasca, era a primeira vez.
Quando a ficha finalmente caiu – algo estranho de fato ocorria - ele se pegou tentando entender os detalhes da reportagem narrada em inglês. Não compreendia nada.
Ficou desesperado. Mudou de canal várias vezes, apertando os botões do controle remoto com força desproporcional. Inútil. Espremer os botões alucinadamente não resolvia o problema, todos os canais se comunicavam na língua de Shaekespeare.
Desligou a TV e foi pra rua na esperança de encontrar alguém conhecido. Vagou, vagou e nada. A cidade estava cheia de ninguém. Todas as caras eram desconhecidas.
Andou até a praia Botafogo e atravessou o túnel novo a pé. Copacabana parecia um pote de sorvete recém saído do freezer... Cobertinha de gelo.
Parou um sujeito que caminhava pela rua, agasalhado até a alma, e tentou estabelecer um diálogo:
-         Amigo, posso falar com você? Me dá uma informação, por favor?
-         Tá. Mas fala logo que eu vou pra assembléia... Respondeu o outro.
A tal assembléia, descobriu num papo rápido com o sujeito, era uma reunião que ocorreria no Teatro Vila Lobos. Imaginou ser para informar aos desavisados o que estava acontecendo. Nada disso. Chegando lá, era apenas uma reunião normal, tipo de condomínio, só que em nível macro. Moradores e autoridades locais debatendo um cronograma de obras para a Zona Sul. Todos falando em inglês e completamente tranquilos em relação ao clima. Pareciam acostumados com a neve desde criancinha.
- Eu heim, coisa de maluco – falou sozinho antes de sair alucinado em busca de alguma explicação minimamente lógica.
Resolveu percorrer a cidade para averiguar a situação. Se estivesse nevando em Bangú, por exemplo, a coisa era grave. Raciocinou.
Fez sinal para um táxi, que não parou. Fez o mesmo para outro, e outro, e outro, e nenhum parava. Assoviou alto e um deles parou imediatamente ao seu lado. Entrou rápido, se perguntando meio atônito se estaria dentro de algum filme americano. Mandou tocar para a Zona Oeste.
Devagarinho, escorregando na neve, o motorista seguia pelo aterro vazio e  estarrecedoramente branco. Nem a grama podia ser vista, mas logo depois da cabeceira da praia de Botafogo havia uma enorme placa onde se lia: Bem vindo ao Central Park. Sentado na parte de trás do carro, bateu com a cabeça várias vezes no banco da frente na tentativa de compreender aquela maluquice toda.
Se a TV falava em inglês porque as placas estavam em português? Tudo era uma incógnita.
Atravessou o centro da cidade devagarinho. Tudo estava irreconhecivelmente vazio. Pouquíssimas pessoas arriscavam-se pelas alvas calçadas que se estendiam desde o fim do aterro até o mosteiro de São Bento, em linha reta, incluindo toda a 1° de março.
Em frente a praça XV pensou nos bares do Arco do Teles. Sentiu vontade de parar para tomar um chope e relaxar um pouco, mas descartou a idéia. “O chope deve ter virado sorvete de cevada “, pensou calado.
Já na Avenida Brasil, reparou que as favelas haviam se transformado em prédios monumentais, daqueles que abrigam centenas de pessoas em um sem número de apartamentos. Uma infinidade de pequenos grupos - jovens, adultos, crianças e velhos de ambos os sexos, em sua imensa maioria negros, se reuniam em torno de barris metálicos em chamas. Provavelmente queimavam algum tipo de óleo nos tonéis para gerar calor e se aquecer. A visão era caótica, mais pela neve do que pelo visual arquitetônico. Tudo estranheza e aflição. Olhando de longe tinha a impressão de que alguns corpos jaziam abandonados pelas calçadas. Mas talvez fosse só alguma ilusão de ótica. Um reflexo do caos que boiava em sua imaginação.
Na altura de Guadalupe o celular tocou. Deu graças a Deus, pois o motorista falava feito um condenado, em inglês, com forte sotaque indiano, sem que ele entende-se coisíssima alguma.
Era Tereza. Cobrava um compromisso romântico marcado no dia anterior e do qual ele não lembrava de ter assumido.
-         Onde você está? Perguntou a namorada visivelmente irritada.
-         Em Guadalupe, dentro de um táxi, a caminho de Bangú.
-         Você é maluco - retrucou a moça – Não sabe que essa área é perigosa pra você? Se os muçulmanos que moram aí decobrirem que você é judeu podem te atacar.
Alfredo pirou de vez.
-         Judeu? Eu nunca fui judeu. Nem religião eu tenho. Será que todo mundo ficou louco ao mesmo tempo, até o próprio tempo, só pra me sacanear? – Disse aos berros pelo telefone.
De repente o sinal do celular sumiu ao mesmo tempo em que o carro parou. Máquinas da Prefeitura retiravam a neve que interrompia o trânsito. Já estavam na altura da Vila Kenedy e nada indicava que o sol fosse dar o ar de sua graça. Aproveitando a mudez temporária do motorista, Alfredo perguntou algo sobre estarem, de fato, no Rio de Janeiro. O Homem sorriu, tentando aparentar simpatia de uma forma visivelmente artificial e, inesperadamente, começou a cantar a música de Berry Wite em homenagem à cidade. Pior a emenda que o soneto.
Um pouco antes da entrada de Bangú lembrou dos presídios, dos muçulmanos citados por Tereza e da sua nova condição de judeu. Mandou seguir direto para Campo Grande.
Quando desceu viaduto do Mendanha quase enfartou. Viu prédios e mais prédios nas laterais da estrada, construções que nunca estiveram ali antes, e pessoas aparentemente de etnia árabe caminhando de cara amarrada, driblando o gelo das calçadas. Vários edifícios ostentavam na entrada o símbolo da meia lua, de acordo com a tradição muçulmana.
 Pediu ao motorista para acelerar, e este, simplesmente riu enquanto o automóvel seguia se arrastando naquele universo glacial.
O medo de parar o automóvel e descer do carro falou mais alto. Seguiu em frente, passando sobre viaduto, direto pela estrada do Monteiro, atravessando o Mato Alto e, literalmente, contornou a cidade, voltando à Zona sul, pela Barra da Tijuca, até a Voluntários da Pátria, novamente em Botafogo.
Desceu em frente ao seu prédio e pagou a corrida. Só então descobriu que o dinheiro em seu bolso era dólar, para a alegria do taxista e sua completa estupefação.
Estava com fome, cansado e confuso. Precisava pensar, compreender a situação. Coisa que tentava fazer, sem sucesso, desde que abrira os olhos pela manhã.
Correu para a Adega da Velha, bar tradicional de comida nordestina onde costumava parar sempre, pertinho de sua casa. Mas lá já não havia mais carne de sol, nem aipim, nem manteiga de garrafa. A antiga adega havia se transformado em um bar tipicamente americano, com cerveja quente, em caneca, e amendoim em cima do balcão. Os caras ao redor falavam de bolsa de valores e corridas de demolição, enquanto as mulheres, peitudas e sem bunda, se limitavam a sorrir de vez em quando e dançavam na frente de uma enorme caixa de música. Quase entrou em pânico, mas manteve o controle.
Sozinho, calado, escondido no canto do balcão, bebeu feito um animal. Depois, já de madrugada, fugiu, disposto a morrer em casa.
Acordou no dia seguinte com uma ressaca que mais parecia maremoto. Abriu o olho e imediatamente lembrou de tudo. Apesar da dor de cabeça, sorriu, achando que, apesar de ter vivido um pesadelo kafkaniano, finalmente acordara e tudo voltaria ao normal.
Sentiu os braços de Tereza se enroscando nele, por trás, e experimentou uma sensação de conforto e segurança. Estava acordando, finalmente. Pensou enquanto a moça lhe sussurrava:
- Levanta amor, O Presidente Barak Obama vem ao Rio agora de manhã e eu quero assistir à palestra dele.

Vestido vermelho

O teu vestido vermelho amarfanhado no chão

na frente do antigo espelho que refletia tua boca

Você, em teu devaneio, divagava fevereiro
enquanto a minha cabeça percorria os outros meses

O teu perfume e teu beijo voaram pela janela
aberta do apartamento marcando em alto relevo
teu nome na minha pele

Mas os meus poros expelem, rejeitam as tatuagens e até inflamam as vezes

Os meus olhos continuam vagando pelas estradas
buscando a mulher alada parecida com você
bem assim como teus dedos tateiam o espaço escuro
em busca de um homem puro que habita teus desvarios

Teus passos rolam macios em avenidas da Europa, da Ásia, da Oceania...

Eu, por meu lado, me apego aos prazeres de Caxias
ou à doce anatomia ondulante e flexível das doidivanas de Copa

Eu sempre escancaro a boca em gritos desesperados por amor e liberdade
Pra você basta um controle de TV, uma novela ou qualquer coisa que engane
o cérebro transparente enquanto a paixão se evade

Ainda sinto teu cheiro, confesso. mas sempre tapo as narinas
em respeito as meninas que voam por minha cama

É claro, elas não amam e nem conhecem meu jeito
mas sabem a espessura das grades que me azucrinam

Nada começa em meu quarto e também nada termina

Amores são só amores e as cores do arco iris embaralham a retina
desfocam a imagem pura e espalham sentimentos confusos por toda parte

Poesia vem de marte, mortificação, de Vênus

Se eu conseguir, pelo menos, equilibrar morte e vida já vou me sentir tranquilo
para explorar o planeta e caminhar pelo tempo com as minhas próprias pernas

Por mais que se diga o oposto, as noites são sempre eternas e o gosto do amor escorre
por quase todos os lábios desde o começo das eras

Na verdade, a antiguidade é igual aos nossos dias em termos de amor e drama

Madalena fez a cama de discípulos insones. Sherazade seduziu e devorou muitos homens
Cleópatra arrebatou um império poderoso ostentando como arma apenas os seus encantos

Os amores foram tantos na história da humanidade
que homens criaram deuses para confundir verdades
difíceis de absorver, compreender e falar na cama ou até na sala
diante de outros seres

Mas você, com suas neuras e seus milhões de afazeres não sabe de nada disso

Até mesmo teu sorriso parece meio postiço oculto por velhas dores
sonhos escorregadios e manchas de leite morno

Ficava em mim o transtorno cruel e obsessivo por ver, assim, teu vestido,
jogado no chão do quarto amarfanhado num canto

Todo dia eu me matava. Nem sei bem por que servia a bebida em duas taças

Eu bebo e brindo a trapaça, você bebe por beber

Nas avenidas de Londres, Budapeste e Manágua a euforia e a mágoa
se misturam em você que, tola, nunca percebe a corrosão dos desejos

Teus dedos tocam na neve espessa do Canadá, afagam balas na guerra,
jogam dados no cassino e eu quase nunca atino para as loucuras que inventas
- demônios, chuvas, tormentas - pra te tornares amarga

Amo uma e outra fada, passeio por entres as pernas
das meninas nas calçadas e nunca penso em você

Quando
me concentro em nada, abro meu peito na estrada

e me espalho no planeta clamando amor e gozo

Meu mundo gira de novo no mesmo tempo e espaço a que estou acostumado

Mas sempre que ultrapasso as fronteiras de você me esqueço do que fazer

O tempo apagou os traços da nossa cumplicidade

O que me resta é a tarde e o sol descendo na linha preguiçosa do horizonte

Te absorvi anteontem e talvez até recorde de você um dia desses
quando eu estiver cansado de beber em outras fontes

Mas hoje, nem mesmo um fardo eu me sinto carregando

Apenas penso nos anos, nos sumos desperdiçados por febre, fome ou fastio

O amor começa eriçado mas vai perdendo a tensão até que fica vazio

Os trilhos por que trafego quase sempre dão num rio empanturrado de amores

Fragrâncias, tons e sabores dispostos no mesmo espaço
sempre ao alcance dos braços dos olhos e dos sentidos para os fins mais variados

Eu nunca me sinto ilhado banhando-me nessas águas impregnadas de cores

Pelo contrário, minha alma fica mais leve, e passeia
Se espalha na superfície, se esfrega, embriagada, em cada palmo de amor

Submeto-me, de bom grado à sensação de torpor como um Dionísio dopado
por inalações lascivas

Espírito serenado deixo fluir minha febre nessa profusão de cheiros que explode dos corpos todos

Vejo na frente do espelho o teu vestido vermelho e rio do meu esforço
para adivinhar teus passos por alamedas escuras

As águas fluíram em março e desbotaram o esboço que havia de você

Hoje à noite vou beber o vinho mais saboroso no cálice virtuoso da minha musa mais bela

Um sorriso de aquarela estará naturalmente emoldurando meu rosto.

Todas as mulheres - um monólogo


I

Muito prazer, sou Adélia
Não sou, felizmente, virgem, mas tenho lábios de mel.
Não tenho muitas razões e nem paixões de aluguel
Mas amo terrivelmente as coisas todas que vejo
Nem todas, é bem verdade,
mas quase todas, e beijo, esbanjando intensidade.

-        Meu nome é mesmo Adélia.
     Gosto de dizer pra todos que quero ser dançarina,
     mas brinco de ser felina e gosto mesmo é do dia,
     da noite e da madrugada.
Às vezes chego cansada ao meu ponto de partida
apresentando nas faces
a coloração vermelha.
É o meu sangue aguçado percorrendo minhas veias,
quase que em desespero.
Sigo a vida pelo cheiro que se desprende
do corpo
em suor, chama, centelha...
Sou jovem, balzaca, velha.
Sou o que me der na telha.
Sou o traço que um poeta
rabisca em algum papel de forma aleatória.
Não faço parte da história, pois na verdade eu invento
sempre o meu próprio roteiro.
Amar, amo o mundo inteiro.
Da vida não abro mão.

II

Quando jovem sou a corsa que ansiosa e deslumbrante
atravessa a madrugada lançando mão dos delírios.
Espalho todos os brilhos e cheiros de que disponho.
Atiço os teus hormônios.
Atrevo-me sempre mais.

Rodopiando no cais fumo, bebo, jogo, lanço
meus tentáculos, e danço
com qualquer moça ou rapaz
que cruzar o meu caminho.
Das rosas, retiro o espinho.
Dos cravos, inalo o aroma.
Amo amores de Sodoma, de Madri, de Calcutá...
Da Lapa ao Jardim de Alá.
Amo as luzes do cenário.
Mas, muito além de amar,
eu brigo se necessário
e cobro dos donatários
que exercem o poder meu direito de viver
da maneira que eu quiser.

III

-        Quando balzaca sou chama de atenta sagacidade.
Se antes eu transbordava do cálice a bebida,
agora ela é sorvida com os rigores da paixão.
Exijo todas as loas dos amores triviais
E nunca mesmo,
jamais, permito-me amar em vão.
A ânsia do meu desejo flui de mim eternamente,
mas percebo, sutilmente,
a arte que nos faz gente,
escapar por nossos dedos.

Persigo o amor nos escombros da guerras do dia à dia
mas equilibro meus medos.
Prezo demais meus segredos,
reclamo, rejeito as farsas.
Não permito que me imponham regras de comportamento
e nem acato, calada, vontades que não são minhas.
Já sei ler as entrelinhas dos contratos sociais
e nego a assinatura.
Nem cláusula nem clausura.
Viver pra mim é bem mais que parir bens de consumo.
Ao invés de algum chicote estalando em minhas costas,
quero de bom grado o toque
de dedos ágeis, macios,
na minha nudez exposta.


IV

-        Se me transfiguro em velha sei o segredo das coisas.
Acumulo em meus olhos os raios da eternidade.
E então exorto aos jovens que jamais sejam covardes.
Que revirem o planeta
Revolucionem o universo.
Eu prego que os insurretos avancem sobre as estrelas
desalojando os tiranos.

Olhando minhas mãos eu vejo a marca firme dos anos
e todo o desassossego das batalhas que travei.

Já fui escrava e vaguei
por um deserto infinito.
Carreguei pedras no Egito
para faraós soturnos erguerem seus mausoléus.
Em Rodes colaborei com a construção de um colosso
que protegia a cidade.
Lutei pela liberdade com os artifícios da cama.
Em Roma fui açoitada.
Da áfrica, sequestrada.
Em nossas praias vi corpos boiando em um mar escuro.
Vi tudo isso, mas  juro,
jamais pensei ver um dia escravos opcionais.

Não admito que seres
humanos que nascem livres
permitam que suas vidas
sejam subjugadas por elementos nocivos.
Eu amo o amor dos vivos.
Libertas quae será tamém.

V

-        Minhas pálidas mãos.
Uma estrutura complexa e flexível, feita de carne, cartilagem e ossos.
Uma concha, uma teia, uma garra especialmente construída
para o toque, para a carícia ou para o soco.

Mãos que pousam sobre o dorso dos que amam feito loucos
e percorrem os caminhos do corpo explorando os vãos.
Apenas um par de mãos.
Miúdas, velhas, estáticas.
Expostas e sorumbáticas
diante de um mundo turvo.

-        Não reconheço estas mãos, toscas,
que saltam, de forma brusca,
e estouram, mediocremente,
na flacidez do meu rosto.

Não são as mesma que outrora emprestavam-me encantos
percorrendo-me o corpo todo
em horas de solidão.

Não são as mãos cujos dedos desvirtuavam meu senso
colhendo vários sabores espalhados pelo mundo
e me trazendo na boca
sumos de tantos amores.

Olhando assim, como estão, parecem mãos que não tocam
nem mesmo acariciam corpos celestes no espaço.
Mas, no entanto meus dedos vagaram plenos, devassos,
por camas, becos e grutas
em noites agigantadas por gozo e sofreguidão.

-        Juro à você,
essas mãos,
esfregavam no meu rosto as coisas todas da vida. 
Amores, dores, odores,
sensações descalibradas de prazeres insensatos,
sentimentos abstratos de povo e de País.
São mãos de beleza e luta
Da destreza mais arguta
Mãos de pura habilidade
Mãos de santa e meretriz.
Com essas mãos fiz loucuras
e busquei a santidade.
Por elas tive vontade de caminhar pelas ruas
De brincar e ser feliz.
De correr o mundo todo...

Mãos que esfregadas no corpo
entranharam em minha pele um jeito estranho de ser.

Foram estas mão que me deram
toda a noção de poder
que ostentei em meus olhos
nos anos incandescente
que construíram minha glória.

Com essas mãos, eu compus a minha história.
Conquistei minha alforria,
Tatuei minha miragem, meu sonho e minha agonia
em pedras e pergaminhos para sempre condenados
à atravessar as eras .
Por elas vivi as guerras,
por elas verti paixões.

VI

A maior de todas as aventuras
decerto é a eterna procura
por amor e liberdade.
Livre.
Ser eternamente livre.
Canto livre, pátria livre, corpo livre.
Livre até para se subverter.
Deixar de ser canto, pátria, corpo.
Deixar de ser qualquer coisa previsível,
     amarrada, obrigatória e poder se transformar em nada,
caso queira.
Ou se transformar em água, carne, vinho...
A liberdade não pode ser um espinho
encravado no fundo
da nossa garganta,
tutelada por um contrato,
com tempo de duração
e condições pré estabelecidas.

A liberdade é a vida correndo no leito manso,
esplendoroso ou bravio
de um rio inexplicável.

É narrar o inenarrável da forma mais absurda.
VII

-        É proibido proibir! É proibido proibir!
Com canções assim, a alma balança.
É como se a febre da plenitude humana
penetrasse em cada poro,
cada pelo espalhado por cada pedaço do corpo.
É como se aquela alma sobressalente,
aquela que fica guardada em alguma gaveta do cérebro,
escondida,
para não nos fazer passar vergonha
em família e em sociedade,
pulasse de repente com gana e ferocidade
engolindo a outra alma.
     A alma morta.
A alma que querem
que a gente use no dia a dia.
Aquela alma certinha, coerente, sensata
e profundamente cretina.
Que se conforma,
adere à tudo e reza todos os dias
para as penas serem mais leves.
Aquela alma que age como um escravo açoitado
clamando ao seu senhor:
“Só mais uma, por favor,
só mais uma chibatada”.
É essa alma bem comportada que vê-se,
deliberadamente, tragada pela outra,
que aflora,
enquanto a canção nos invade.
Se formos traçar um delta entre um ser,
obediente,
e um outro,
libertário,
encontraremos um vasto, sutil e inexplorado
espaço a ser percorrido.
O primeiro tem o peito sufocado e dolorido.
Quando ri é sem encanto,
quando chora é trivial.
O outro tem no semblante a essência magistral
do guerreiro absoluto.

É Alexandre da Grécia passeando com bucéfalo,
semeando em vento bravo
os sonhos nunca sonhados.
Eu quero esse ser alado.
Esse Ícaro orgulhoso por suas asas derretidas.
Esse que, cantando a vida, desafiou o Deus sol.


VIII

-        É bom ser livre de tudo
e galopar sem receio
por toda a imensidão.
É bom carregar nas mãos
a sobriedade e a ternura.
Soltar a alma na rua
para que ela procure
sua própria identidade.
É bom, ao cair da tarde,
deixar o corpo voar
seguindo a trilha do vento.
É bom sentir o momento
em que a vida floresce,
torna-se plena e madura.

IX

-        As vezes uma saudade exótica
e incongruente convulsiona minha mente e eu me sinto perdida.
Já não posso olhar a vida como uma bela aventura.
É mídia, é Deus, é censura,
quase tudo me aporrinha,
amarra minhas mãos às costas
ou me impõe seus antolhos.
Na minha idade não posso nem mesmo erguer os olhos,
sem sentir o eterno medo de tomar uma porrada.
Maconha? Nem estragada.
Trombeta e cogumelo – a manita matutina –
viraram pó em saquinho
nos auto fornos da indústria
que envolve toda a cidade.
Sobraram fogos e balas.
É assim que os imundinhos,
que chegaram ao poder
se livram, solenemente,
de todo ser que atrapalha.

Meus olhos não são mais olhos
de ver paixão e poesia,
mas teleobjetivas, em aparelhos diversos,
amarfanhados nos bolsos,
da enorme e triste manada
que segue ao matadouro.

Quando se fala em boiada, logo se pensa no estouro.
Mas essa segue calada, feliz e domesticada.
Com os cérebros, ao que parece,
desplugados da tomada
geradora de emoções.
Ao invés de cantar canções,
rezam, embriagados,
para um Deus – livre mercado –
que os traga redenção.

Dinheiro, muito dinheiro.
E que se fodam os sonhos
acumulados nos olhos
de toda a humanidade.

X

Na verdade esse mundo
me parece dominado por um bando de covardes.
Ao invés de romper as grades
de sua própria prisão
vão inventando mil Deuses,
todos cruéis, como ingleses,
colonizando outras terras.

Um Deus que proíbe tudo.
Um outro que morre mudo e adora se abster;
Outro que conduz os tolos ao fundo do cadafalso.
E cada vez surgem mais
igrejas e templos falsos
para sugar almas novas,
moedas e obediência
da multidão que adota como seu eterno lema
o absurdo teorema
de que é pecado viver.

Idolatram os conceito de sofrimento e atraso
como forma de pureza.
Renegam a natureza e usam
de velhos mitos
como eficaz antídoto
contra o amor e o prazer.
Quem discordar ganha tiro,
morre de amor no exílio ou exclui-se do sistema.
Poema, pra que poema?.
Humanos são perigosos.
Viva a robotização.
    
     E tristemente a nação vai caminhando de lado
ao modo dos caranguejos.. .

-        Sempre que posso me vejo mudando
os rumos da história.
Arrebanho meus amigos e faço a revolução sem disparar uma bala.
Inverto os sons do sistema.
Modifico os programas.
Saboto a placa mãe.
Espalho um vírus do bem
por toda parte da rede
e salvo milhões de seres
das garras desses tiranos.
Impregno a matrix
com o germe do instinto humano,
abolindo a insanidade programada no sistema.
A pena é que, na verdade,
sou eu quem pareço insana
diante de toda a trama,
dessa mesmice pequena.


XI

-        As vezes uma angústia
portentosa e acachapante
invade meus aposentos e me deixa entristecida.
Jamais supus que viver fosse tarefa tranquila
à ponto de se deixar levar
e sorrir pra tudo.
Mas também não acho justo
que se tenha que enfrentar os monstros
o tempo todo.
Por isso equilibro o jogo.
Em meio a luta sorrio e mesmo sorrindo, luto.
Em tal jogo permaneço
até que o monstro me vença, ou fuja, pedindo  arrego.
Não importa se remoço
ou mesmo se envelheço.
Só me importa que meus braços
mantenham-se preparados para algum novo combate.
Se remoçar, quero arte.
Se envelhecer, quero um beijo.

XII

-        Das coisas todas do mundo
perdidas pra todo o sempre
o que mais me incomoda é o tempo jogado fora.

Acordem crianças ! Acordem !

Há um mundo vivo lá fora
precisando de vocês.
Rasguem a lição do dia.
Ignorem as advertências.
Explorem o corpo ao lado,
do amigo ou namorado,
e tomem o mundo nas mãos.

Já faz um tempo que a história
fugiu pra dentro da máquina.
Puxem ela pelas asas,
arreganhem suas pernas e bebam da sua fonte.
Corram, se multipliquem,
montem uma enorme mesa
de banquete e se sirvam
de tudo ao seu alcance.

Beijem, pulem, gritem, dancem.
Transformem este sanatório em um baita salão de festas.

-        Os imundinhos se prestam a coibir
seus instintos
em troca muita grana.
Mas poderosos não amam.
Então, mande-os ao inferno que eles próprios
inventaram para impedir que as flores
do planeta desabrochem.

Acordem crianças! Acordem!

No meio dessa agonia modorrenta, que dá nojo, há um baú
escondido com tinta, pincel, estojo,
lápis de cor e giz cera.

São acordes infinitos, bailarinas e atores, palhaços e trapezistas, poetas e escritores.

Há gente por toda parte ensaiando
um passo novo, por mais que eles insistam
em matar a alma humana.

É mentira o mundo triste, a que chamam realidade.
Crianças pelas calçadas vendendo a dignidade, bala perdida
voando em busca de um peito exposto,
a fome, a morte, a trapaça que se assiste em palácios
de governos e  mansões...
Esse bando de ladrões, trambiqueiros, vigaristas,
milhares de parasitas exercendo o poder...

Nada disso é a verdade.

A verdade esta, de fato, no belo beijo
estalado dado no lábio carnudo.
Nas mãos apalpando tudo
ventre, coxa, bunda, seio.
A verdade esta no veio de terra
que é cultivado
pelas mãos de um simples homem.

Está na feira, na fábrica, na praça aos fins de semana.
A verdade esta na cama de todo amante sincero
que trata o amor com esmero e atende aos seus caprichos.
Esta nos olhos dos bichos, nas paredes da oficina, no leito bravo do rio
que abastece a cidade.
A verdade está na tarde
caindo sobre as cabeças de quem passeia na rua.
No sol da manhã
Na lua.
Na claridade do fogo.

A verdade não é um jogo a que se possa dar pausa
como qualquer game boy.

E preciso reparar
em todas as suas nuances .
Nas pistas que ela nos deixa
pra que possamos acha-la.
Seja nos cantos da sala.
No centro oco do mundo.
Na rua.
Na genitália.
Na alma de um vagabundo.

A verdade grita tudo
com a boca escancarada
mas tem a voz abafada por cortinas de fumaça.

Rasgando essa carapaça
que nos serve de redoma, ficaremos frente a frente
com o olho nu da verdade.

Só nos basta boa vontade e um senso libertário pra fugir dessa mentira.

Acordem crianças, acordem!

Para além dessa porteira que nos mantem prisioneiros
existe um mundo inteiro onde se cultiva a vida.
Há sensações pululando na estrada ali em frente.
Quebrem os elos das correntes.
Mergulhem nessa lagoa, bela e desconhecida, oculta pelos temores.
Deixem vibrar em suas bocas a explosão dos desejos.
Permitam-se.
Libertem-se.

Caminhem por sobre as nuvens como sempre fazem
os seres que ignoram grilhões.

Que venham os jovens de agora
Passar a limpo essa história
Compondo novas canções.


XIII

-        Hoje eu acordei pensando em luzes.
Mas não em luzes de quartos,
de lâmpadas vacilantes, incandescentes, broxantes, fosforescente
ou algo qualquer que ilumine o corpo tão mal assim.

Pensei em luzes variadas, plenas, absolutas.
Poderosas na essência, mas que também não iluminam
as grutas em que os homens
se escondem quando tem medo
das estranhezas mundo.

Mas, mesmo assim quero luz.

Luz, quero luz.

A luz que faltou a Goethe
também se esconde de mim.

E deve ser só por isso, por falta de claridade, que as dores todas
me invadem, sacodem minhas entranhas, explodem nas minhas faces,
mas  não arrancam os disfarces
que sempre trago comigo
para os momentos difíceis.

Deve ser mais ou menos isso.
Alguma espécie de eclipse
particular e confuso que não me permite ver
com os olhos de toda gente.
Que não permite que a dor me doa naturalmente
assim como dói ao cão, ao mendigo, à prostituta
ou ao músico que não escuta a canção
que ele próprio compõe.

Meu modo de perceber
os dramas todos da terra é sempre tão diferente
que as vezes até considero se a natureza exagera
ou se  é  condescendente e boa demais comigo.

Eu poderia dizer que na verdade não ligo,
mas isso seria mentira, pois todas essas coisinhas,
no fundo, me incomodam.
Também queria que a droga da novela de TV
se inoculasse em meu sangue
para que eu, em rodas de papos falsos,
não me sentisse absurda.

Queria compartilhar com as mães profissionais
os problemas de família,
como a castração das filhas,
a exposição dos filhos, os reclamos dos maridos,
as tarefas da cozinha, da casa, da empregada,
a arte do amor de fachada,
a necessidade extrema de uma nova mobília...

Eu também queria, eu juro, viver de hipocrisia
rogando a todos os santos, mas somente para mim,
a felicidade plena, negada a minha vizinha.

E vejam bem, digo juro como prova irrefutável
de que quero adquirir os vícios vocabulares
de que todos fazem uso.

XIV

-        Apesar desses percalços
do comportamento falso,
das mega idiotices constatadas o tempo todo,
do amor pelo engodo desenvolvido no cerne de tanta  gente que vive
cultivando a esperança de ludibriar a vida,
me sinto cada vez mais jovem.
     Mas também me considero, às vezes, bastante envelhecida.

Já vivi tantas façanhas, vi tanta mediocridade, que fico muito
à vontade para opinar sobre tudo,
e exatamente por isso,
por ser jovem, velha, e dama
de meia idade,
é que trago no embornal enorme variedade de coisas a oferecer

Trago água de beber colhidas em muitas fontes, trago esmeraldas, diamantes, venenos e essências raras.
Eu trago todas as taras ousadas no mundo inteiro,
trago flores, trago cheiros
e misturado à isso tudo trago um universo de dores, de sorrisos e temperos impensáveis para alguns.
Na verdade permaneço boiando
no meio termo, entre o raro e o comum.

A anciã subversiva, a senhora permissiva e a moça sentimental
que prega revolução,
todas elas me são caras e impregnam minha alma
com pouquíssimos pudores e um gigantesco senso
de criação e liberdade. 

Na confusão das idades já nem sei se ser eu mesmo
revigora alma e corpo, estabelece conforto
ou simplesmente enche o saco.

Meu tempo é tão desconexo que já nem sei com certeza
se existe algo no espaço que referende, de fato,
tamanhas reflexões.

Navego entre tufões mas também vôo, tranquila, sob céus de brigadeiro.
Vem daí o desespero, creio,
e as alucinações, que me acompanham na estrada.

XV

-        De todas as qualidades
do tempo
a que mais vigora
e a que mais me apavora e ameaça meu intento,
é mesmo essa coisa bela,
mortífera e sacana
chamada envelhecimento.

Torna escassos os momentos, mas, do mesmo modo faz
com que percebamos cores em coisas que antigamente
nos pareciam banais.

Meus dedos velhos que ontem
costuram meu destino, hoje, puro desatino, não sabem mais o caminho
seguro à ser seguido.

Cozinho meias palavras.
O que não sei, adivinho.
Mas perco-me nessa estrada
     estranha e inacabada que se abre à minha frente.
Eu não posso ser mais nada.
Sei disso naturalmente.
Já perdi a cor da pele, dos olhos e dos cabelos.
Quebrei todos os espelhos e com eles meus reflexos.
Já sufoquei o meu sexo.
E agora, o que me resta, é um resquício de voz.
Eu uso e abuso da voz, tremida e vacilante.
E nesse parco instante, vocifero e vos suplico.
Eu grito à plenos pulmões
      Ergam os olhos.

Eu grito.
Levantem ambos os braços
Lutem até que seus trajes se transformem
em farrapos, como já fizeram muitos, em outras guerras travadas
na história da raça humana.

-        Empunhem vossas espadas como Zumbi dos Palmares
mas não se esqueçam, na luta, dos versos, dos Quintanares,
de Pasárgada e da Ilíada, de Aquiles e de Heitor.

Não deixem cair por terra, em meio à grande batalha, a ânfora em que se guarda o sonho justo dos guerreiros.

-        Lutem!
Mas lutem inteiros, com corpo e alma na luta.

Não permitam que a vitória escape
por suas bocas e nem que o aço da adaga retalhe seus sentimentos.

Lutar é acima de tudo revigorar-se por dentro.
É guerrear por amor à vida e a liberdade.

Por amor à humanidade embrenhar-se
em pelejas, em batalhas colossais, lembrando a boca
que beija e a mão que acaricia.
Lembrando o amor que vicia.

Endurecer, pero sim, perder la ternura, jamais.

-        Agora o sono me chega
Já não grito como antes
As mãos – sempre as mãos – me negam as batalhas mais vibrantes
e, tolas, fracas, se entregam
ao repouso do meu colo

Recolho armas e enrolo em paus as minhas bandeiras
Repouso em minha trincheira
aguardando o tempo certo
de reconduzir a flecha ao olho do inimigo.

Um dia rejuvenesço, volto a guerra e consigo
dar novo brilho as estrelas.

XVI

-        Por mais estranho que possa
parecer a quem me olha,
ainda cultivo desejos que a maioria ignora.
    
     Eu abro a boca e meu beijo
se espalha pelo planeta se impregnando nos corpos
que encontro sempre ao meu lado.
Ainda quero provar sabores mais apurados.
Quero por na minha boca
a polpa dos tantos frutos que permanecem escondidos.
Aqueles que ficam guardados
do lado escuro da lua,
impossíveis de alcançar.
Meu tato e meu paladar,
no entanto, mantêm-se atentos.
Farejo sabores no vento e vou a qualquer lugar
pelo prazer de sorver
o gosto de outros amores.

Gosto de crer que algum dia vou misturar em meu olhos as cores do arco íris.
Celebrar gozos felizes.
Verter mel sobre as pessoas.

Eu gosto da sensação de gozar alucinada
e dividir coisas boas com todos que me rodeiam.

Eu falo, de boca cheia, que a coisa que eu mais amo
nessa vida desumana
é viver a mais profana experiência de êxtase.

Ignoro a exegese e sempre mergulho mais.
Indo cada vez mais fundo.
O que eu quero é que o mundo
pulse sempre em um compasso
voraz e acelerado,
como o arfar dos meios seios.

Quero a flor dos devaneios na palma da minha mão.

Pode até ser um delírio, uma adoce enganação...
Mas sempre vejo estampado
nos olhos da madrugada
o clamor do meu desejo.
É o meu amor que viceja de forma destrambelhada
e o olho da noite, embaçado, quase nunca enxerga nada
do que acontece por dentro
da minha intensa paixão.

Eu quero lutar as guerras, desafiar muitas feras, defender a humanidade.
Mas antes quero a dosagem certa de amor e drama.
Quero, à partir de uma cama, lutar contra os indecentes.

Na verdade eu só quero
gozar tão sinceramente
que os tolos fiquem doentes
só de saber do meu gozo.

Quero que os poderosos
considerem horroroso
gozar tão feliz assim.

Eu quero que meu prazer
seja um grito apaixonado,
que o cheiro fique entranhado nas narinas dessa gente;
que eles lembrem para sempre do cheiro do  amor em mim.

XVII

-        Ainda me chamo Adélia
Confesso minhas loucuras
Sobrevivi ao holocausto, à solidão, à clausura
Sobrevivi a tortura sem perder minhas vontades
Equilibrei as vaidades e um turbilhão de desejos
na ponta dos dedos meus.
Fugi de todas as celas
Tantos cárceres privados...
Nasci, a bem da verdade, com um destino alado e voei sobre as cabeças
de todos os meus algozes

Ferozes, todos ferozes.

Mas quem bem me conheceu sabe melhor do que eu da extensão do meu drama.
A voz suave engana, mas as mãos ficam marcadas
e acabam contando tudo.

O rosto absorve traços
e se torna um quadro, mudo, retratando, ponto à ponto,
cada detalhe da história.

Hoje o que eu trago é glória.
Êxtase.
Superação.

Passei por todas as guerras sem,
nem sequer, abrir mão,
da minha sobriedade.

Eu amo a liberdade!

Escrevo com diamante
no centro do estandarte
que sempre trago comigo
esse lema,
e me obrigo,
a transformá-lo em verdade.
Sou, com prazer e vaidade, todas as fêmeas do mundo
que atravessaram desertos
e enfrentaram reinados.

Deixei meu amor marcado com a mão direita, na pedra,
e com a outra, a esquerda,
empunhei o meu machado em tantas e tantas guerras
que às vezes nem eu sabia os motivos do combate.

Horrores de parte a parte, presenciei em campanha.
Mas nem sempre estive em luta ou em batalhas de morte.
Já fui princesa na Espanha.
Amei um homem da côrte
do Rei São Luiz de França.
Encontrei uma criança em andrajos de hebreu
nas margens do rio Nilo.
Tratei estresse e fadiga de soldados do império.
Já condenei o adultério
e fui a outra na vida
de homens que conheci.
Em Troia fui o pivô de uma grande batalha.
A grande guerra de amor
que atravessou as muralhas
de uma cidade pacata
à custas de um mero engôdo.

E agora vôo de novo,
por sobre os céus das cidades,
e vejo como é imensa
e grave a desolação.
Em algumas falta pão,
em outras falta coragem.


-        Mas nem tudo está perdido
só precisamos parar
de olhar
nosso próprio umbigo,
redescobrir os amigos
e a velha capacidade
de sorrir e de sonhar.


XVIII

Quem sonha não vive só,
então, pode se apoiar
no ombro que está ao lado

Daqui mesmo, do tablado,
já se pode convocar
pessoas pra reagir.
Tem gente que vem da praça,
outros da arquibancada
alguns vem da madrugada
e outros do camarim.
Vem gente de todo canto,
do Rio e de São Paulo,
de Pernambuco, Manaus,
da Austrália e de Pequim.

A multidão se formando
As vozes se embolando
Os braços se levantando
Grito de guerra ecoando
Todos querem reagir

O povo, o preto e o pobre
A dama, o sujeito esnobe
A prostituta e o marido
A empregada e o faquir

Tem gente que vem de longe
de Londres e Nova York
gente que vem à reboque
de algum concerto de rock
beber o restinho aqui

E assim vai se juntando
a massa,
e o povaréu
vai descobrindo que a vida
vale mais que um troféu

Que o amor que a gente tem
não pode ser de aluguel

A plateia descobrindo
que também tem um papel
a representar na peça.

Nego coçando a cabeça
se descobrindo poeta

      E as meninas se tocando
misturando a silhueta
redescobrindo a faceta
de se deixar seduzir

E os meninos do planeta
dançando de boca aberta
estetas e não estetas
aprendendo a reagir

Tem gente de cara limpa
Velhinha, mulata e freira
rebolando as cadeiras
e aprendendo a reagir

Tem gente lá do nordeste
amolando a peixeira
tomando cana na feira
e aprendendo a reagir

Vem gente de todo lado
A moça vem do mercado
O moço vem da curimba
Tem gente que reza o terço
Tem gente que choraminga
Todo mundo nessa ginga
Aprendendo a reagir...