sexta-feira, 16 de março de 2012

O Deus mercado (Conto)

1

Ariosto encontrou Thomas Morus num Bistrô de Ipanema. Thomas estava ansioso para mostrar o novo software que havia criado. Coisa de louco...  Mostrava ao amigo no laptop. O programa era capaz de identificar o texto escrito e reproduzi-lo em áudio. E mais. Partindo de um banco de vozes pré armazenadas, o operador poderia escolher qual delas reproduziria o texto, em inglês, francês, alemão, russo, polonês, africâner ou português e permitia também o uso de palavras novas por comando de voz, com tradução automática, ou seja, o próprio operador poderia falar, ao invés de escrever, e o programa faria o resto, reproduzindo o áudio na voz escolhida. Thomas lambia a cria, orgulhoso de sua criação, enquanto Ariosto pensava numa maneira de ganhar grana com aquilo. Estava completamente duro, tangenciando o desespero.
No dia seguinte, conferindo as contas que chegavam pelo correio, Ariosto não tirava o tal programa da cabeça. Como ganhar dinheiro com a invenção do amigo? Produzir e vender em larga escala exigia investimento e demorava demais. Vender para alguma empresa especializada poderia ser interessante, embora reduzisse os ganhos, mas também levaria algum tempo. Ele precisava de dinheiro urgentemente. Gás, Luz, telefone, água, todas as contas estavam atrasadas e além do risco de ficar no escuro, com sede, isolado e com fome, poderia ficar também sem casa. O aluguel também estava em situação periclitante. Na verdade toda a sua vida estava segura por uma teia de aranha que a qualquer momento se romperia. O caos estava próximo, muito próximo.
Passou as horas seguintes atracado com o computador, escarafunchando a internet em busca de oportunidade. Preciso de dinheiro! Berrava para si mesmo a cada tentativa frustrada de encontrar um bom negócio. Disparou e-mail para todos os cantos oferecendo seus serviços, dispôs para venda na rede as poucas coisas que ainda tinha, vagou por todas as páginas de busca de maneira agoniada, sem conseguir, no entanto, obter sucesso. Até surgiam algumas coisinhas. Mas nunca para ganhar dinheiro suficiente em tempo hábil. Não encontrava, em todo universo virtual, nada que lhe parece minimamente compensador. Tudo se perdia em um universo de desqualificação e sub remuneração.
Programadores se ofereciam por migalhas e as empresas ofereciam ainda menos pelos seus serviços. Estava cada vez mais convencido de que o conhecimento não valia absolutamente nada. Estudar tinha sido um desperdício de tempo e grana. O mercado quer robôs, berrava irritado, e nem querem pagar por isso.
Decidiu vingar-se e invadiu a página de uma grande empresa, uma gigante do setor de informática, e distribuiu insultos impublicáveis. Na área do “quem somos”, comum em sites de grandes empresas, escreveu “Somos sanguessugas e queremos trabalho escravo”. Animou-se com a brincadeira e partiu para outras Home pages.  Para as grandes estatais reservou o termo “parasitas” como palavra chave e para as outras, ladrões, gângsters, bandidos e coisas do gênero. Ao final do dia já tinha feito um estrago institucional considerável, então, consumada a vingança, foi dormir o sono dos justos. Sentia-se mais leve, apesar de continuar sem um centavo no bolso.

2

Uma semana depois Thomas Morus já nem se lembrava do papo com o amigo. Absorto em um projeto novo, manipulava o PC, em casa, diante da TV ligada muito mais por necessidade de companhia do que qualquer outra coisa, mas a entrada no ar de um plantão de noticias lhe chamou a atenção. O prédio de uma mineradora, a gigante Vale do Rio doce, estava na tela. Era um seqüestro. Aparentemente, um grupo de homens armados havia invadido a sede da empresa durante a madrugada e fazia refém um de seus principais executivos. Logo pela manhã, ao chegarem ao trabalho, os empregados encontraram todas as portas trancadas e os elevadores parados, o sistema se segurança havia sido acionado, todos foram impedidos de entrar e o sequestro foi anunciado. Ninguém entra e ninguém sai. Ordem dos bandidos.
As polícias tomaram um quarteirão inteiro da Rua Graça Aranha. Tinha de tudo, Polícia Militar, Civil, Federal e até guarda municipal, esta última, provavelmente, para cuidar do trânsito. As emissoras de TV enviaram, aparentemente, todos os seus repórteres para o local, pois a impressão é de que havia mais jornalistas que policiais. Até o engraxate que trabalhava em frente ao prédio da Vale foi entrevistado e declarou solenemente, em cadeia nacional, que não tinha a menor idéia do que estava acontecendo.
Na falta de informação segura, transmitia-se todas as especulações possíveis. Eram dez bandidos e 18 reféns, daqui a pouco eram 5 bandidos e 20 reféns. Mais à frente 3 bandidos e 30 reféns, as informações mudavam a toda hora. Emissoras convocaram seus especialistas, mas como sequestro é algo raro, pelo menos nestas proporções, não encontraram muitos especialistas no tema, então pegaram curiosos. Qualquer um que já tivesse ouvido falar de tal crime era imediatamente convocado para palpitar sobre a situação e a especulação acabou crescendo em progressão geométrica.
A cada momento a situação ficava pior. Se aproveitando da concentração de policiais em um só evento, os ladrões comuns arregaçaram as mangas e foram ao “trabalho”. A cidade virou um inferno. Assaltos e roubos de carros em toda parte. Centro, zona sul e zona norte viveram um dia de paraíso para a criminalidade. A polícia simplesmente ignorava o apelos das vítimas feitos pelo 190 e a imprensa também não noticiava nada à respeito..
Todas as atenções estavam voltadas para a tragédia da Vale.
Já era quase meio dia quando o negociador da polícia finalmente conseguiu estabelecer contato com aquele que parecia ser o líder dos seqüestradores, através do telefone da presidência da companhia, situada em um dos últimos andares do prédio. O bandido não estava muito a fim de colaborar.
- Quantos reféns você tem? Perguntou o negociador.
- Muitos. Respondeu o bandido.
- O que você quer?
- Dinheiro.
A negociação não era lá muito animadora.

Enquanto fingia negociar com o bandido, a polícia estudava estratégias para invadir o prédio. Após estudos preliminares, chegaram à conclusão que a ação se concentrava no andar da presidência, então arrombaram a porta principal e invadiram o prédio, disparando o alarme geral. O chefe dos bandidos não gostou e ameaçou matar um refém caso a invasão prosseguisse.

- Eu mato um. Eu juro. Ameaçava o bandido pelo rádio do negociador, que estava no viva voz.

Imediatamente, por conta do juramento, a imprensa começou a divulgar que se tratava de um bandido católico e cada emissora convocou um padre para entrevistas que pudessem traçar o “perfil psicológico” do meliante.

A polícia continuava negociando, oferecendo perdão parcial caso os reféns fossem soltos e tentando ganhar tempo enquanto as equipes avançavam sorrateiramente na tomada do prédio. Depois de obter todas as informações possíveis com o responsável pela área, a equipe técnica da polícia tentava burlar o sistema de segurança, buscando uma maneira de chegar ao andar do seqüestrador sem chamar a atenção do mesmo. A coisa evoluía lentamente, mas trabalhava-se com a convicção de que seria possível libertar os reféns e prender o bandido. Tudo era uma questão de tempo.

Thomas Morus começou a considerar a cobertura do sequestro muito chata, apesar da curiosidade, e desligou a TV, voltando a dedicar-se ao computador. Ao abrir seu e-mail recebeu uma mensagem de Ariosto.

“Teu programa vai nos deixar ricos. Perambulei pelas financeiras da cidade e consegui descolar muita grana emprestada. Graças a você vou multiplicar muitas vezes esse dinheiro. Você vai ver. Prepare-se para a fortuna. Champanhe, iates, viagens e mulheres bonitas te aguardam”

“Você tá maluco. Como é que a gente vai pagar esses empréstimos?” Respondeu Thomas.

“Fica tranqüilo. Relaxa e goza. No final das contas você vai me agradecer”


3

A notícia da sequestro em andamento tomou conta do país. Todos os olhos estavam voltados para aquela ação hollywoodiana que acontecia ao vivo, para todo o Brasil, elevando a audiência de TV e rádios à estratosfera. Não demorou para começar a especulação sobre as conseqüências do ato. E se explodissem o prédio? E se os reféns fossem mortos? Será que a Vale pagaria o resgate? Quanto valeria a vida dos executivos para a empresa?
Apesar de ninguém saber ao certo o número de reféns nem quem eles eram exatamente, a comoção era geral. A direção da Vale divulgou comunicado avisando que só se pronunciaria após o desfecho da situação. Nem ela, nem ninguém, contava com dados suficientes para se posicionar. A única informação concreta estava concentrada no negociador, que cada vez mais tinha dificuldades de lidar com a situação. Seu interlocutor fazia exigências inverossímeis e ameaçava o tempo todo a integridade dos reféns.

- Se eu ouvir algum barulho no prédio, se eu desconfiar que vocês vão invadir, eu jogo pela janela a orelha de uma mulher que está gritando aqui. – Dizia o bandido pelo rádio, ainda no viva voz.

A imprensa agora concentrava seu foco em analistas do mercado financeiro. Tendo a mineradora, historicamente, uma das ações mais bem cotadas na bolsa de valores, especulava-se o impacto do sequestro no mercado mobiliário. As ações despencavam e a preocupação era quanto à possibilidade de que um efeito dominó atingisse a cotação de outras empresas. O mercado corria risco. O Ministro da fazenda foi à televisão tentar acalmar o mercado, oferecendo a garantia de que o governo envidaria todos os esforços para garantir a prisão dos bandidos, a libertação dos reféns e estabilidade do mercado. Ninguém deveria se preocupar, segundo o Ministro.
Os acionistas, no entanto, não deram muita atenção às palavras da autoridade financeira máxima da nação e a bolsa despencava vertiginosamente. A maior vítima, é claro, era a própria Vale, que via suas ações esfarinharem-se no mercado sem poder fazer absolutamente nada.
Não satisfeita com a opinião de analistas tupiniquins, a imprensa resolveu consultar estrangeiros. As emissoras enviaram seus correspondentes para a bolsa de Nova York, exportando a especulação para as terras do Tio SAM. Sem entender direito o que estava acontecendo, todos os consultados, com base nas informações passadas pelos repórteres, fizeram analises catastróficas. Da forma com o a coisa era colocada os estrangeiros tinham a impressão de que ocorria no Rio algo padecido com o ataque ao Word Trade Center, só que sem terroristas. Alguns pensaram até que o Brasil estava acabando, dada a natureza afoita dos jornalistas, de tal forma que as previsões jogaram as ações da Vale ainda mais pra baixo, fazendo-as chegar ao  fundo do poço.
Na falta de condições para ajudar de forma mais concreta, pessoas do povo rezavam diante da TV, pedindo piedade aos céus e encaminhando a alma dos reféns que, dado aos exageros dramáticos da imprensa, tinham a certeza de que jamais escapariam com vida daquele bando de facínoras gananciosos. A romaria de populares levando flores para as imediações do prédio, como se uma carnificina já tivesse sido consumada, e os milhões de velas e orações escritas em bilhetes deram a imprensa a idéia de explorar o lado emocional da coisa. Padres, pastores e beatos foram convocados para palpitar sobre o pecado e as virtudes da alma humana. Todos, sem exceção, tinham uma tese para a questão, sobre como Deus castigaria barbaramente os malfeitores e salvaria todas as vítimas, exceto, é claro, aquelas que tivessem contas à acertar com o todo poderoso.
Foi num desse programas, em uma emissora que teve a brilhante idéia de promover o “equilíbrio” entre as opiniões e resolveu convocar um não religioso para o debate, que ocorreu uma situação constrangedora. Perguntado sobre o que sentia diante de tão horrenda situação o entrevistado agnóstico foi sucinto: Nada. Não sinto absolutamente nada. Logo após as interjeições de estarrecimento que ecoaram no auditório a repórter continuou.

- Como assim, nada?   Os reféns estão correndo risco de vida, a polícia está toda concentrada no local do crime, as pessoas estão mobilizadas no país, talvez no mundo inteiro, e o senhor não sente nada? O senhor não está sendo muito insensível? Caprichou a apresentadora.

- Na verdade não. Pode ser que as pessoas tenham visto alguma atrocidade, mas eu não vi nada.

- Como assim?

- Eu só vi um homem falando ao telefone. Um policial. Não vi bandidos, armas, reféns... Não vi um só ato de violência, apenas um exército enorme de policiais em volta de um prédio.

- Mas o senhor não ouviu o seqüestrador fazendo exigências? Ameaçando a vida dos reféns? Nós mostramos isso ao vivo...

- Eu vi um policial falando com alguém ao telefone. Não vi mais nada. O cara com quem ele fala pode estar em qualquer lugar. Não houve sequer um indício de que alguém esteja dentro do prédio.

Só podia ser ateu... Gritou alguém da platéia.

- Eu não sou ateu, minha senhora, sou agnóstico. E isso nada tem a ver com religião.

Isso é coisa do diabo, isso sim... Vociferou um pastor que participava do programa.

Diante da situação constrangedora, a emissora imediatamente tirou o programa do ar e entrou com a programação comercial. Até os telespectadores ficaram assustados, boquiabertos com a falta de humanidade do participante do programa.
A polícia continuava cercando o prédio, embora o negociador não conseguisse mais manter contato com o líder dos criminosos. A cada tentativa o telefone chamava até que a ligação caísse. Já começava a escurecer e a bolsas continuavam caindo. Ao rés do chão na verdade.
Quando escureceu, chegaram o Governador e o secretário de segurança pública. Em entrevista ao vivo ambos afirmaram já ter pistas da identidade do líder dos bandidos. Segundo o Secretário tratava-se de um ex servidor público, indignado com a política de privatizações, que pretendia fazer chantagem com o Governo. Já o Governador garantiu que os bandidos seriam presos e os reféns libertados à qualquer momento.
Eram sete horas em ponto quando as equipes internas comunicaram ao comando da operação ter chegado, depois de arrombar várias portas, ao último andar do prédio, onde supostamente estavam os reféns. Foi quando, inesperadamente, o seqüestrador fez contato pelo rádio.

- Eu sei o que vocês estão fazendo. Se tentarem invadir eu mato todos e me suicido.

- Calma, calma. Gritou o negociador. Vamos conversar.

- Se invadir, todos morrem. Não tem papo... Retrucou o bandido.

Consultados, Governador, secretário e comandante da operação deram a ordem pra invasão.
A polícia colocou escutas nas portas para calcular os movimentos e escolher o melhor ângulo para as explosões. Não se ouvia nada. Havia o temor de que o seqüestrador tivesse cumprido a promessa, apesar da ausência de tiros, e todos estivessem mortos. Mas o Secretário, irritado, ratificou a ordem de invasão.
A população que acompanhava tudo pela TV estava consternada. Mulheres gritavam, crianças choravam, homens ficavam sérios, com semblante preocupado. Todos se perguntavam quantos reféns haviam, se já estariam mortos, se a polícia os salvaria... Todas as dúvidas boiavam no ar.
Explosivos posicionados, um policial deu a ordem e a porta de entrada do último andar transformou-se em uma bola de fogo, assim como as janelas próximas. O povo via pela TV a explosão, ao vivo, e rezava pela alma das vítimas.
A equipe militar completamente equipada ocupou o andar imediatamente, com armas em punho, checando a presença de bandidos e reféns, buscando feridos e possíveis mortos.  Não encontrou nada. O andar estava completamente desocupado e os únicos estragos eram aqueles proporcionados pela explosão do arrombamento.

- Não há ninguém aqui, comandante. Comunicou o chefe da ação pelo rádio.

- Como não há ninguém? Vasculhem tudo.

- Não há ninguém, comandante. Repito. O andar está vazio.

Após o trabalho da equipe técnica, que periciou o local, foram descobertos apenas dois crimes: invasão remota do sistema de segurança e grampeamento de todas as linhas telefônicas. Qualquer ligação para o prédio era desviada imediatamente para o telefone da Presidência.
- E a pessoa que estava falando comigo ao telefone? Onde está ela? Quis saber o negociador.

- Em qualquer lugar, senhor – respondeu o técnico. Havia um software de voz linkado ao sistema. Poderia ser operado à distância.

- A voz. Quero imediatamente uma analise da voz de quem falava comigo. Vamos identificá-lo.

- Já fizemos isso, senhor. A voz pertence à um artista, o dublador do John Travolta no Brasil. Tudo foi reproduzido pelo Software. Não havia ninguém no local do crime. Aliás, nem houve crime. Tudo não passou de uma encenação.

A mídia, estupefata, não sabia como veicular tal notícia. Governador, Secretário, Comandante da polícia, Delegados Federais, ninguém se dispôs a dar entrevistas.
As pessoas em casa ficaram convencidas de que era tudo mentira. A polícia, é claro, havia matado todos, mas ninguém queria assumir a culpa. As orações se transformaram em indignação. As pessoas se sentiram traídas, enganadas, usadas pela imprensa, pelos governantes e pela polícia. Tudo não passou de uma farsa, como no carnaval e nos jogos de futebol.


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Ariosto chegou à casa de Thomas alguns dias depois, por volta das 10 horas da manhã. Acordou o amigo com um presente: uma caderneta de poupança no valor de cento e vinte e dois milhões de reais. Thomas achou que estava sonhando, mas depois de lavar o rosto conferiu o extrato e ficou pasmo.

- Cara, onde você arrumou essa grana toda?

- Isso é a metade do que eu ganhei investindo aquela grana que eu peguei emprestado. É a tua parte.

- Como assim, minha parte? Eu não entrei com nada. Foi você quem fez os empréstimos.

- Eu sei. Mas teu software me ajudou a compreender os meandros do sistema financeiro. Investi a grana toda na bolsa de valores e ganhei duzentos e quarenta e quatro milhões com a valorização das ações que eu comprei.

- Cara, tu é muito sortudo, isso sim. Como meu programa te ajudou nisso?
- Analisando os dados. Depois de estudar todas as nuances do programa eu resolvi investir tudo em ações da Vale quando elas estavam em baixa. Deu super certo.

- E o que a gente vai fazer agora? Nem sei como é ser milionário.
- Tudo. Vamos fazer tudo. Vou começar indo para Hollywood. Sou louco para conhecer o John Travolta.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Neguinho não quer mais morrer


Boteco. Ao fundo um grupo toca violão e canta. Neguinho entra vagarosamente, com ar tristonho, e se dirige à Heraldo, do outro lado do balcão.

Neguinho – Heraldo, me da um copo aí.

Heraldo – Pô... Você quer só o copo? Não quer nenhuma bebida dentro não?

Neguinho – Não. Só quero o copo. Me empresta aí. Prometo que vai ser a última vez que uso as coisas do teu bar sem gastar dinheiro.

Heraldo – ( Entregando o copo com voz debochada) Sacanagem. Assim eu vou acabar é falindo. (Gargalhada )

Neguinho – (Pega no bolso do paletó uma garrafinha e entorna seu conteúdo no copo que lhe é dado) Heraldo, você já ouviu falar de Moisés Sesyom ?

Heraldo – Já sim. É poeta, né? Do Rio Grande do Norte... Mas não conheço nada dele não. Só ouvi falar.

Neguinho – Pois eu vou te recitar um poema dele... Escuta só. ( Recita com lágrimas nos olhos. Nas pausas cheira a bebida no copo e faz menção de tomá-la. Na mesa do fundo, um artista pontua o poema ao violão. Todos olham para Neguinho )

A morte mata o sultão, arcebispo e cardeal, presidente, marechal, ministro, conde e barão.
 Em tempos matou Roldão, como na história deu.
O próprio Jesus morre. Mata tudo, ó morte ingrata... só não sei por que não mata um infeliz como eu.
Ela mata todo mundo, branco, preto, rico e pobre. Mata o potentado, o nobre; mata o triste e o vagabundo.
Matou Dom Pedro Segundo, matou quem o sucedeu. Capitalista e plebeu, mata tudo, não tem jeito. Mas não mata, por despeito, um infeliz como eu.

Não reserva o cientista, mata sem dó o profeta, tirana, mata o poeta, mata o maior estadista. Mata também o artista, o cego, o mudo, o sandeu...  mata o crente e o ateu, diplomata e titular, mas poupa, não quer matar um infeliz como eu.

Ela mata no Senado, como matou Rui Barbosa. Entra no Congresso airosa, aí mata um deputado. Matou Pinheiro Machado, dele não se condoeu.
Ela jamais atendeu, mata gente, mata bicho, mas não mata por capricho um infeliz como eu.

O violão segue pontuando a fala de Neguinho até a entrada de Antônio no bar.

Antônio – Vamos parar com essa palhaçada aqui ( batendo no balcão ). Heraldo, você ainda não me deu o dinheiro da semana.

Heraldo – E nem vou dar, seu filho de uma puta. Eu não trabalho pra sustentar vagabundo.

Antônio – (Sacando a arma e apontando para o rosto de Heraldo ) Você perdeu a noção de perigo, seu safado? Eu dou um tiro no meio dos teus cornos. Quer ver? Eu quero meu dinheiro.

Heraldo – Que dinheiro? Você trabalha aqui por acaso? Não te devo dinheiro nenhum.

Antônio – Deve sim. (Gritando) Deve sim. Você trabalha na minha área. Quem te da segurança sou eu. Eu quero meu dinheiro agora. Senão vou mandar a milícia dar tiro pra dentro dessa porra a torto e direito até espantar tudo quanto é cliente vagabundo que você tem. Vou mandar os moleques estuprarem todas as mulheres que vierem compra no teu armazém. Vou expulsar todos esses artistinhas de merda daqui. Se você não me der meu dinheiro eu vou transformar tua vida num inferno.

Neguinho, sentado, abaixa a cabeça na mesa e chora compulsivamente. Antônio olha para os artistas no canto.

Antônio – E vocês, seus merdas? (Empunhando a arma) Vão falar alguma coisa?

Todos permanecem calados.

Antônio - E você, Neguinho, ta chorando porque? Nem te dei uma porrada ainda (Gargalha e guarda a arma no cós da calça ).

Antônio – E tem mais... ( Toma o copo de Neguinho ) Quem chora à toa tem que beber é mijo. Me dá essa porra aqui...

Neguinho – (Grita enquanto Antônio bebe a bebida de um só gole ) NNNNNãaãaãaããooooooooooooooo...

Antônio – O que foi, seu merda. Vai chorar porque bebi tua cachaça? (Rindo)

Neguinho – Seu Antônio, (Chorando) eu perdi minha mulher. Ela foi embora...

Antônio – Foda-se... Quem manda ser frouxo.

Neguinho – (Chorando) Ela levou meus filhos

Antônio – Bem feito, otário (Rindo)

Neguinho – (Chorando) O dono da casa que eu morava me expulsou de lá. A mulher levou o dinheiro que era pra pagar aluguel.

Antônio – Foda-se, foda-se, foda-se... Eu to cagando e andando pra tua desgraça, seu merda ( Antônio leva a mão na barriga, acusando dor)

Antônio – Aiii...que dor filha da puta ( Tomba)

Neguinho – (chorando) Eu sou um merda, eu sei que eu sou um merda. Por isso eu vim aqui dar um fim nessa porra.

Antônio- (Se debruçando sobre a mesa) Aíii....tá doendo pra caralho... Chama um médico. ( Se contorce de dor )

Neguinho – Eu sou um merda e o senhor, seu Antônio, é um covarde filho da puta. Quer me esculachar, me esculacha. Mas é uma puta sacanagem o senhor chegar aqui, e assim, sem nenhum respeito ( Chorando), sem nenhuma consideração (chorando), sem nenhuma misericórdia ( Choro compulsivo ), beber a porra do meu veneeeeno  (Grita)

Antônio agoniza e morre.

Um dos artistas dedilha o violão. Câmara no rosto de Neguinho, segue até a mesa, mostrando as mãos de Heraldo, que bota bebida em um outro copo e o entrega.

Heraldo – Toma, Neguinho. Essa é por conta da casa.


OBS: Vou catar parceiros pra filmar e fazer um curtíssima metragem. Que tal o roteiro?...rsrs

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Breve adeus

Te quero até que o sol
Me mande luz
Nos olhos outra vez

Pode ser daqui a um mês
Ou amanhã de manhã

Eu quero a flor
Que abre
Dentro de você

Saborear, sorver
Tua avidez pagã

Eu quero o teu gosto
E o cheiro
E a cor
E o teu tempero
Impregnados
Nos sentidos meus

Tudo isso até que a luz retorne

Pra molhar a nossa face
Desfazer os nós do enlace
E celebrar
o nosso adeus.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Prazeres

Cansei de pessoas fúteis, 
Carradas de leis inúteis
Gente de matéria plástica ...


Eu quero a vida orgástica, 
Prazeres, beijos,desfrutes...

sábado, 20 de agosto de 2011

Canção da angústia


Cadê a rosa de Carlos
Cadê a flor de Vandré
Cadê o grito de fé
Que eclodia dos bravos

Há cem milhões de escravos
Reféns vagando nos guetos
Sem que se ouça canções
Compostas por insurretos

O crime vem dos castelos
Exploram os favelados
Roubam até flagelados
Negando que há flagelo

Eu quero a rosa de Carlos
Pesando como um martelo
Na alma dos delinqüentes

Eu quero toda essa gente
Pagando, com a liberdade
Pelos vícios do poder

Eu quero a flor de Vandré
Atropelando os canhões
Da farsa e da mentira

Eu quero o poder da lira
Expulsando os vendilhões
Da pátria e da boa fé


Vicente Portella

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Canto livre

Quem me dera ter um nome índio
E outro africano
E outro judeu
Quem me dera ter todas as terras
como uma só terra
Como um berço meu

Eu quero muito não ser o estrangeiro
nem ver estrangeiros
em qualquer semblante

Eu quero muito ser do mundo inteiro
E amar por inteiro
cada mero instante

Ai quem me dera soldar as fronteiras
Quebrar as barreiras
que separam os seres
Jogar meu beijo sobre a cordilheira
deixa-lo voar
e descobrir prazeres

Quero mesclar os amores da terra
unificar as línguas
espalhar canções
que possam ser sentidas, percebidas
e reproduzidas 
à plenos pulmões

Quero ofertar ao mundo um canto livre
ombreando as vozes 
em favor da vida

Cheirar a flor que brota escondida,
em plagas distantes,
mas que ainda vive.

Vicente Portella

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

O fim do natal digital

O dia amanheceu quente. Natal, verão, compras, tudo isso ao mesmo tempo agora atordoa qualquer um, tanto que Juvenal nem percebeu a febre do filho. O coitado teve que berrar seu diagnóstico para ser ouvido.

- Pai, peguei uma virose braba. Minha febre tá batendo 38 e meio, dá pra dar uma forcinha aqui?
Assustado, o pai levantou um pouco o couro cabeludo, logo acima da nuca, e trocou o chip de festas natalinas pelo de medicina infantil. Pôs a mão na testa e nas faces do filho, mediu a pressão com o polegar no pulso do garoto e sentenciou: 

- É verdade. Deve ser mesmo alguma dessas viroses que andam por aí.

O pai sabia que o filho também estava usando o chip de medicina infantil, fez aquele misancene todo só pra demonstrar afeto ao seu rebento.

- E então, o que o Sr. Acha, Doutor?
- Um antitérmico basta, é uma virose simples. Mas estou com o corpo mole, pai, enfraquecido. Vou precisar de alguma ajuda. 
- Tudo bem. Vou deixar a Marilda tomando conta de você e vou trocar meu chip, botar o de economista, para fazer as compras de natal. Fica tranquilo.

Cumprindo o prometido, deixou o garoto com a empregada depois de dar ordens expressas para que ela também acoplasse o chip de medicina infantil.

- Isso é bobagem, seu Juvenal, eu sei muito bem cuidar de criança com febre – disse a empregada enquanto ajeitava o dispositivo – Além do mais, Doutor, estamos preparados para qualquer eventualidade, concluiu já como médica.

Passou quase o dia inteiro no shoping, como economista, avaliando os preços, comparando-os e considerando o possivel impacto de cada compra no processo de formação de poupança, geração de emprego e no reflexo de tais transações no mercado financeiro internacional. Fez muitos cálculos. Só trocava o chip de economista pelo de piloto na hora de se transportar entre um shoping e outro. A cada pausa recebia as mensagens transmitidas via wirless por Marilda, diretamente para seu chip, à respeito do estado de saúde do Garoto. Tudo corria muito bem, graças a Deus. 
Acabou comprando coisa paca, enchendo o carro de presentes para a família toda e só não comprou remédio por considerar denecessário, principalmente depois que identificou um aumento sazonal de preços devido a demandas no setor de exportação dos laboratórios. Poderia comprar mais barato depois.

Chegou em casa e deu de cara com mulher, na cozinha. Trocou rápido o chip para amante latino e começou a agarrar a patroa, cheio de paixão, mas ela, que acabará de chegar de uma palestra, estava usando o chip de politicamente correto e o repeliu imediatamente.

- Comporte-se Juvenal, disse, enquanto trocava, ela mesma, o chip dele pelo de marido responsável, fazendo com que fosse cuidar dos pequenos reparos necessários à casa para a festa de natal.

O filho já estava bem, completamente sem febre, e desfrutava o chip de criança feliz fazendo algazarra na piscina. 
Terminado os afazeres, Juvenal e Marisa, a mãe, foram exercer sua responsabilidade e correção na beira da piscina, vendo o filho brincar, e até deixavam transparecer um ar embevecido enquanto conferiam os vários chips de que dispunham no case em suas mãos.
Olhando aquela cena, o filho retirou seu próprio chip, correu até a beira da piscina e empurrou os pais dentro dágua, junto com todos os chips. Enquanto ambos se debatiam o guri foi por trás das nucas e retirou também os chips que ambos usavam, danificando-os para sempre ao joga-los dentro dágua. Os pais ficaram estáticos. De repente, depois de tantos anos, viram-se usando suas próprias personalidades. 
No princípio ficaram assustados, depois riram um pouco e, por fim, gargalharam com as brincadeiras do moleque. 
Aquela altura do campeonato as lojas não estavam mais abertas para a compra de novos chips, por isso a família viu-se obrigada a permanecer careta, os três, sem qualquer adorno tecnológico de realidade virtual. Restritos, enfim, às suas próprias habilidades humanas e sentimentos pessoais. Tiveram a noite de natal mais feliz de suas vidas.

Vicente Portella